21.1.18

RESUMO DA VIAGEM

(Por Flávio Faria, depois de a viagem terminada)


PERÍODO DA VIAGEM - de 25/12/2017 a 17/1/2018 (24 dias) - Viemos em grupos separados desde Rio Branco/AC, por causa da necessidade de revisão de garantia das motos de Gilson (feita em Porto Velho/RO) e Zael (feita em Rio Branco/AC). Gilson e Paulo Amaral chegaram no mesmo dia 17/1 quase 9h depois do primeiro grupo (às 22h), e Zael chegou em casa no dia seguinte (dia 18/1).

QUILÔMETROS RODADOS - 11.318 km - sendo 4.807 no Brasil, 2.160  na Argentina, 2.349 no Chile e 2.002 no Peru.

O PROJETO E A REALIDADE - Nosso objetivo era retornar pela Bolívia, mas fomos surpreendidos por um movimento dos caminhoneiros locais, que bloquearam as fronteiras e as estradas. Tivemos que improvisar a volta pela Rota Interoceânica (de Cusco/Peru a Rio Branco/AC).

CURIOSIDADES DA VIAGEM - medição pela minha moto (Flávio Faria) - Foram 52 abastecimentos em 52 diferentes cidades. Pernoitamos em 16 cidades de 4 países. Gastamos aproximadamente 10h30 apenas em procedimentos aduaneiros.

ÁLBUNS:





20.1.18

INFORMAÇÕES INICIAIS DO PROJETO



Seis amigos de Brasília, numa viagem de 11.300 km por quatro países da América do Sul: Brasil, Argentina, Chile e Peru.

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INFORMAÇÕES INICIAIS DO PROJETO

(escrito por FLÁVIO FARIA)

Esta viagem é fruto do desejo de seis amigos de Brasília de pegar a estrada em suas motocicletas e de aprofundar seus conhecimentos sobre a América, esse vasto território que nos abriga. Conhecer os locais, as histórias e as culturas antigas é pré-requisito de uma verdadeira aventura. Não basta apenas ir lá. É preciso conhecer, aprender com a sabedoria nativa, com as pessoas e suas culturas, vivenciar os dias com serenidade e, acima de tudo, trazer significado à nossa própria existência. Viajar transforma a alma! Renova nosso espírito e nos permite voltar para casa melhores do que quando saímos. Este é o espírito de aventura que nos move e nos faz acreditar que, concomitantemente à estrada, estamos também viajando para dentro de nós, nos conhecendo e nos aperfeiçoando como seres humanos.

LOCAIS A SEREM VISITADOS do Brasil, Argentina, Chile e Peru, em 11.300 km de estrada.
Foz do Iguaçu / Chaco Argentino / Paso de Água Negra (divisa Argentina/Chile) / Litoral Pacífico chileno de La Serena a Arica / Deserto do Atacama (San Pedro) / Ruta 1 Chilena / Vale do Colca (Arequipa) / Machu Picchu e outros sítios (Cusco) / Rota Interoceânica (de Cusco a Rio Branco/AC)




PARTICIPANTES DA AVENTURA e suas MOTOS:

Gilson Wander - BMW GS 1200 Adventure
Paulo Amaral - BMW GS 1200 Adventure
Anderson Nunes - BMW GS 800
Zael Batalha - Honda Africa Twin 1000
Marcus Vinícius - BMW GS 800
Flávio Faria - Triumph Tiger 1200 Explorer


Todos membros do Moto Clube ÁGUIA SOLITÁRIA, de Brasília.




DOIS GRUPOS, UMA VIAGEM

(Escrito por GILSON WANDER)


No planejamento da nossa viagem, por questões profissionais e de adequação das férias de cada um, tivemos que encontrar uma solução que melhor atendesse a todos. Por conta disso, decidimos dividir nossa turma em DOIS GRUPOS, que sairão de Brasília em datas distintas.

O primeiro grupo, formado por GILSON, FLÁVIO, ZAEL e MARCUS VINICIUS, sairá de Brasília ao meio-dia de 25/12/2017 (Natal) e seguirá para Foz do Iguaçu (PR), transitará pelo território argentino com o intuito de chegar ao Paso de Água Negra (que separa a Argentina do Chile) e que tem início na cidade de Las Flores (Argentina) e término em La Serena (Chile).

O segundo grupo, formado pela dupla PAULO AMARAL e ANDERSON, deixará Brasília no dia 30/12/2017, com destino a San Pedro de Atacama, no Chile.

Em San Pedro, os DOIS GRUPOS se encontrarão e seguirão juntos rumo ao Peru.







DIÁRIO DA VIAGEM

( Escrito por FLÁVIO FARIA)

EXPLICAÇÕES DO PROJETO:

Amigos, nosso projeto é muito pessoal e quero esclarecer algumas coisas. 
Saímos de casa pra rodar 12000 km em 25 dias, o que dá aproximadamente 500 km/dia. Uma média razoável para quem anda de motocicleta. De todo o grupo, apenas Anderson não é cinquentão. Estamos usando motos de primeira linha, de boa potência, controle de tração, freios ABS e outros apetrechos que ajudam (muito) nessa aventura. Chegamos a uma idade que fizemos por merecer os veículos que temos. Todos começamos lá embaixo, em motos 125 ou 250 cilindradas, lá pelos anos 1980. Hoje estamos aqui realizando sonhos com nossos brinquedinhos de duas rodas.
Tivemos que abrir mão de lugares muito legais no planejamento dessa viagem. Não iremos reprisar as Cataratas do Iguaçu, as  Missões Jesuítas e outros locais pitorescos que ficarão ao largo do caminho. Agora sim podemos começar o diário dessa experiência.

Dia 25/12/2017 - segunda -feira - De Brasília a Fronteira (MG) - 653 km rodados

Vou itemizar pra ser objetivo:

1) Saímos de Brasília, do posto Playtime, às 11h. Pegamos rodovia duplicada a maior parte do tempo, pedagiadas, em boas condições de tráfego. Encaramos chuva forte por 10 minutos nas imediações de Hidrolândia (descobrimos in loco o porquê do nome desta cidade).

2) Paramos pra dormir em Fronteira (MG), no hotel JK, a 70 pilas por cabeça em quarto individual. O nome da cidade já explica parcialmente que estamos na divisa de MG/SP. Paramos por volta das 17h30, embora tivéssemos ainda quase duas horas de luz pela frente. Vale lembrar que todos estamos com déficit de sono por conta das festividades de Natal, que avançaram na madrugada de hoje.





Dia 26/12 - terça-feira - de Fronteira (MG) a Foz do Iguaçu - 956 km rodados hoje. 1609 km desde Brasília.

1) Saímos às 7h do hotel e em menos de 5 minutos já estávamos no Estado de São Paulo. E lá fomos nós, mantendo média razoável até entrar no Paraná.

2) Paraná e seus pedágios caríssimos! Já estive neste Estado pelo menos uma dúzia de vezes. Não houve uma única passagem que eu não tivesse pegado muita chuva. Não foi diferente. Mais de 3h embaixo d'água. Pra piorar, pagamos pedágios elevados, que variaram entre 5,90 e 7,70 (metade do valor de um automóvel) pra viajar em vias com poucos trechos duplicados, com travessias urbanas demoradíssimas, centenas de quebra-molas, barreiras eletrônicas de 60 km/h, caminhões pra todo lado e sem aquelas "terceiras faixas" salvadoras pra ultrapassagens de veículos pesados. E acrescente-se a isso: "puliça pra dar de pau!!!". Essa concessão é um caso de polícia. Pena que eles só cuidam da velocidade da pista.

3) Chegamos em Foz do Iguaçu às 19h, exauridos, depois de quase 12h de viagem, 1600 km rodados e 60 reais de pedágio. Ficamos hospedados na Pousada Cataratas, em quarto duplo, a 110 reais por cabeça.








27/12 - De FOZ DO IGUAÇU a ITA IBATÉ - 474 km rodados hoje. Total da viagem 2083 km, sendo 446 km na Argentina

1) Putz, hoje foi um dia  truncado. Sequer rodamos 50% do que havíamos planejado.  Zael levou a moto cedo pra fazer revisão na Honda. Fomos eu e Gilson até lá e pegamos nós três um táxi pra Ciudad del Este, do lado paraguaio. Minha ideia era comprar um drone a 600 dólares pra fazer filmagens bacanas da viagem (de cima). Quando cheguei na loja especializada, descobri que meu aparelho celular (da classe J da samsung) não serve pra comandar o drone. Eu teria que comprar outro (mais caro que o próprio drone). Desisti!

2) Por conta desses deslocamentos, saímos do hotel às 11h40, com destino à Argentina. Embora a aduana ficasse a apenas 14 km de distância, demoramos cerca de 2h30 pra entrar na tierra de los hermanos. Encaramos cerca de 3 km de fila pra fazer os procedimentos aduaneiros, derretendo de calor sob nossas vestimentas.

3) Quando saímos da aduana, estávamos morrendo de fome e sede. Andamos cerca de 60 km e paramos num self service de quinta categoria. Retomamos a viagem depois de 1 h de comilança. Paramos para abastecer em Jardim América. Mal andamos 1  km tivemos que parar no meio da rodovia por causa de uma reivindicação salarial de populares, que bloqueou a estrada por 30 minutos.

4) Afora isso, a Argentina é um local lindo. Tudo verdinho, com borboletas amarelas, estradas muito melhores que as nossas, com um pequeno detalhe: moto não paga pedágio!!! (uuuhh) O povo daqui é super bacana. Gosta dos brasileiros, de aventureiros e de Pelé!!!!

5) Well, no frigir dos ovos, chegamos em Ita Ibaté às 20h, cidadezinha no meio de uma região pesqueira muito linda, às margens do rio Paraná.

Ita Ibaté/ARG

Ita Ibaté/ARG

Rodovias argentinas

Ita Ibaté/ARG

Rio Paraná/ARG


CHEGANDO EM AGUA NEGRA

(Escrito por Flávio Faria). Vou resumir 2 dias da viagem hoje.

Dia  28/12, quinta - de IBATÉ a EL ALTO, Argentina -  911 km rodados hoje. Total de 2.994  km.

Dia 29/12, sexta - de EL ALTO a RODEO, Argentina - 679 km rodados hoje. Total de  3.673km (sendo 1636 no Brasil e 2064 na Argentina)

1) É bom relembrar que estamos viajando em 4 pessoas (Flávio, Gilson, Marcus e Zael). Paulo Amaral e Anderson sairão de Brasília no dia 30/12. Desde que entramos na Argentina, no dia 27, trafegamos por sete províncias (equivalente aos "Estados" no Brasil): Missiones, Corrientes, Chaco, Santiago del Estero, Catamarca, La Rioja e San Juan. Vou falar um pouco dessa experiência:

2) Tivemos uma surpresa boa ao passar pela cidade de Corrientes. Não passamos pelo posto da polícia caminera, super especializado em achacar motoristas, mundialmente famoso na arte de cobrar propinas!  Não tivemos tempo pra tomar uma cerveja pra comemorar isso! Cheguei até a pensar que ele não existia mais, mas apenas mudou de lugar. Agora está localizado num ponto problemático para parar o trânsito, próximo à ponte que separa Corrientes de Resistência (capital da província del Chaco). Na entrada do Chaco, encontramos um casal jovem de Goianésia, Renato e Jaqueline, que está fazendo a sua primeira viagem internacional, com destino ao Deserto do Atacama. Eles me fizeram lembrar na minha própria história. Minha primeira viagem internacional também foi para o Atacama, ao lado da minha esposa Rosane e do meu amigo Paulo Amaral (que está no Grupo 2 desta viagem), em outubro de 2007.

3) O Chaco argentino é umas das regiões mais quentes da América do Sul (mais quente que o próprio Atacama), mas desta vez fomos surpreendidos por  temperatura agradável e aproximadamente 80 km de chuva forte. Mas, em contrapartida, Santiago del Estero nos esperava com sensações térmicas acima dos 35 graus, com retas infindáveis de dar sono. A partir dali percebem-se os sinais das regiões menos desenvolvidas: rodovias ruins, sujas, com muitos remendos e buracos; cabritos, porcos e cavalos ao largo da via; serviços ruins e longas distâncias entre postos de gasolina. Por falar nisso, quase ficamos sem gasolina e sem dinheiro. Não conseguimos sacar nos caixas eletrônicos argentinos. Tentamos nos bancos Nacional da Argentina e de Santiago del Estero. Rejeitaram  nossos cartões! E por aqui ninguém se interessa por dólares (difícil trocar moedas). Às 19h30, entramos capital da província de Estero para providenciar dinheiro em espécie. Eu e Zael conseguimos sacar 2000 pesos cada na opção "cartão de crédito", no caixa eletrônico do Banco Santander, e pagamos 195 pesos de tarifa cada por essa operação. E ainda teremos que pagar 6% de IOF. Foda, véi!

4) Ontem, dia 28, tivemos que rodar até às 21h30 (22h30 no Brasil) pra encontrar um hotel pelo caminho. Saímos da rodovia principal mais de 20 km e fomos dormir num lugar péssimo, numa vilazinha chamada El Alto, em pensão de quinta categoria, sem wi-fi e água quente. Pra piorar, não conseguimos cerveja em lugar algum pra arrebatar o calor, nem nos bares da localidade. Antes de anoitecer, das 17h às 20h30h, pilotamos com sol batendo na cara. E como diz o poeta: "Pior que sol de frente, só dor de dente e cerveja quente!". No dia seguinte percebi que estava sem o meu celular. Não sei se deixei na pensão ou se o perdi pelo caminho.

5) A partir de Catamarca, no sopé da Cordilheira dos Andes, começamos a conviver com curvas maravilhosas, que dão real prazer à pilotagem. Na província de San Juan entramos no trecho argentino da travessia de Água Negra, um dos lugares mais pitorescos desse planeta. A partir de amanhã postaremos fotos.

6) Paramos para dormir em Rodeo, Argentina (de onde escrevo essas mal traçadas linhas), na pousada "Cinquenta Nudos", que quer dizer "50 nós" em espanhol (velocidade do vento), construída de forma artesanal pelas mãos do proprietário Hernan, durante 13 anos de trabalho contínuo e árduo.  Aqui nesta cidade há ventos ideais para a prática do kitesurf, num lago chamado Cuesta del Viento. Vale a pena se hospedar aqui!

No Paso de Agua Negra, lado argentino










Lago Cuesta del Viento

Com o casal Renato e Jaqueline, de Goianésia






NO PASO DE AGUA NEGRA

30 e 31/12/2017 - sábado e domingo - de RODEO (ARG) a VICUÑA (CHILE) - 271 km rodados hoje. Total de 3.944 km (sendo 1636 no Brasil, 2160 na Argentina e 161 km no Chile)

(escrito por Flávio Faria)

1) Antes de sairmos do hotel hoje, em Rodeo, nossos outros dois parceiros: Paulo Amaral e Anderson, já estavam na estrada com destino ao Atacama. Pararam pra pernoitar em Presidente Prudente/SP. Iremos nos encontrar no dia 3/1/2018 em San Pedro de Atacama (Chile).

2) Hoje foi um dia que seguramente marcará nossas vidas. Atravessar de moto o Paso de Agua Negra (região da Cordilheira dos Andes que separa a Argentina do Chile) é algo para poucos privilegiados. De fato, é um cenário único nesse planeta tão diversificado. As montanhas totalmente sem vegetação é um lugar impróprio para a vida humana. Interessante perceber que nesses locais ermos nós aprendemos a valorizar ainda mais nossas próprias vidas, a perceber o quanto somos pequenos diante da grandiosidade da obra divina. São 200 km sem qualquer povoado ou cidade. Nada se vê além de pedras e areia de colorações variadas, em altitudes que chegam aos 4753 metros. Difícil de respirar. Foi nessa região que caiu o avião uruguaio, em 1972, em que os sobreviventes tiveram que recorrer ao consumo de carne humana para se manterem vivos.

3) Curvas e mais curvas, centenas delas de 180 graus, nos esperavam. Subidas e descidas íngremes nos 77 km do temido rípio (cascalho) foram vencidas lentamente, beirando despenhadeiros cinematográficos. Sofremos com o compartilhamento da via com caminhonetes 4x4 que levantavam poeira na nossa frente. Nessas horas é bom ter certo "senso de covardia" para encarar esse terreno pedregoso e não pavimentado. Como dizem lá em Minas : "Precaução e caldo de galinha nunca mataram ninguém". Fizemos toda a travessia em segurança, sem nenhum incidente ou risco digno de ser mencionado.

4) A parte mais bela do Agua Negra são os blocos de gelo branco que se formam nas laterais da pista (vejam fotos) e os lagos esverdeados acima dos 3 mil metros de altitude.

5) Mas nem tudo poderia ser perfeito no dia de hoje. Na primeira aduana, Argentina, ficamos exatamente 2h20 para sermos atendidos, com sol forte sobre nossas cabeças e sensação térmica de 43 graus (medida fielmente pelo aparelho Skywatch). Na aduana chilena, foi bem pior! 2h50 em condições parecidas, inclusive com desmonte da bagagem para ser radiografada. Burocracia de 5h10 no total. Uma evidência absurda do nosso subdesenvolvimento. Um fingimento evidente de que eles levam tudo muito a sério.


2h50 na aduana chilena, em busca de sombra
6) Paramos para passar dois dias em Vicuña, uma cidadezinha chilena muito simpática que está nos encantando, próxima do trecho final de Agua Negra. Aproveitaremos para lavar as  motos e as cuecas e passar o ano-novo por aqui mesmo. A ideia era ir para La Serena, mas os preços por lá estão exorbitantes e os hotéis são raros nesta época. Estamos hospedados num local muito bacana, chamado Hostal Aldea de Elqui, a preço de 15000 pesos chilenos (diária individual), algo abaixo de 100 reais.

(fotos do Paso de Agua Negra)